O que aconteceu com o vibe directing

O termo vibe directing tenta fazer com a direção audiovisual o que vibe coding fez com a programação: transformar uma competência técnica em uma experiência guiada por intenção verbal. No site da OpenArt, o Director aparece ligado a formatos como curta, trailer, videoclipe, anúncio de produto, conteúdo social, vídeo explicativo e microdrama. A promessa é clara: a ideia deixa de ser apenas um prompt isolado e passa a virar uma sequência dirigida, com controle de storyboard e edição por conversa.

A campanha, de acordo com a reportagem, foi criada internamente usando o próprio Director. Esse detalhe é importante porque faz do anúncio uma demonstração e uma tese ao mesmo tempo. A empresa não está apenas dizendo que sua ferramenta cria vídeos; ela está colocando o resultado em espaços associados ao cinema, onde a régua simbólica para imagem, som e narrativa é mais alta.

O movimento também aparece num momento em que a publicidade já se reorganiza ao redor da IA generativa. O relatório de vídeo digital do IAB, divulgado em 2025 e repercutido pela TVTechnology, apontava que 86% dos compradores de mídia já usavam ou planejavam usar IA generativa para criar anúncios em vídeo, com projeção de que 40% dos anúncios usariam esse tipo de ferramenta em 2026. Mesmo que projeções devam ser lidas com cautela, o sinal é forte: a discussão saiu do laboratório e entrou no orçamento.

Por que isso importa para criadores e marcas

O impacto mais interessante não está apenas na economia de produção. Está na mudança de linguagem. Quando uma plataforma promete transformar conversa em vídeo, ela desloca parte do trabalho para a capacidade de formular intenção: saber dizer que tipo de tensão uma cena precisa carregar, qual deve ser a distância da câmera, que ritmo combina com a ideia, que textura visual aproxima ou afasta o público.

Esse é o ponto que muitas campanhas de IA preferem suavizar. A ferramenta pode reduzir barreiras, acelerar rascunhos e permitir testes que seriam caros demais em produção tradicional. Mas ela não elimina a necessidade de olhar. Pelo contrário: quanto mais fácil é gerar imagens, mais importante se torna saber rejeitar a imagem errada. E dá-lhe tentativas.

Para marcas, isso muda o papel do criativo. Em vez de pensar apenas em uma peça final, a equipe passa a pensar em sistemas de variação: versões para públicos, plataformas e contextos diferentes. Em vez de uma campanha fechada, surge uma lógica de matriz visual. Isso pode abrir possibilidades para pequenos anunciantes e estúdios independentes, mas também pode empurrar a comunicação para um excesso de vídeos parecidos, com acabamento polido e pouca ideia. (Em breve, sai o meu curso sobre criatividade, onde o foco é potencializar você frente à ferramenta de IA)

Para o audiovisual, a tensão é ainda maior. A palavra direção carrega uma história: escolha de ponto de vista, relação com atores, desenho de cena, montagem, som, tempo e silêncio. Quando uma empresa usa a palavra para nomear uma interface, ela está disputando o sentido cultural da profissão. Não significa que a ferramenta seja irrelevante. Significa que a linguagem precisa ser defendida no uso, não no discurso. Fora o preconceito e boicote inicial que sempre acontece quando algo sacode um mercado ou segmento consolidado.

A diferença entre operar e dirigir

Uma pessoa pode operar uma câmera sem dirigir uma cena. Pode escrever um prompt sofisticado sem entender por que uma sequência não respira. Pode gerar um plano bonito que não sustenta narrativa nenhuma. A fronteira entre operar e dirigir aparece justamente quando a ferramenta entrega algo visualmente sedutor, mas conceitualmente fraco.

É aí que a conversa (nesse mesmo blog) sobre criação com IA e olhar humano continua atual. A pergunta não é se a máquina consegue produzir uma imagem. Ela consegue. A pergunta é quem decide se aquela imagem tem necessidade, precisão e consequência. O risco do vibe directing é transformar atmosfera em substituto de pensamento. O potencial é permitir que mais gente teste ideias visuais, desde que a facilidade não seja confundida com autoria pronta.

Há ainda um efeito de mercado. Se ferramentas como o Director conseguem entregar vídeos curtos, anúncios e microdramas em escala, parte da pressão competitiva recai sobre produtoras, agências e freelancers. Algumas tarefas intermediárias podem ser comprimidas. Outras podem ganhar valor: direção de conceito, curadoria visual, acabamento, estratégia de campanha, edição crítica e capacidade de construir consistência entre peças.

O que observar a seguir

O primeiro ponto é a reação do público. Campanhas feitas com IA podem ser recebidas como inovação, economia ou atalho preguiçoso, dependendo do resultado e da transparência. A mesma tecnologia que ajuda uma marca pequena a produzir pode também saturar feeds, telas e cinemas com imagens sem fricção.

O segundo ponto é a evolução do controle. A promessa do vídeo por IA só ganha maturidade quando o criador consegue repetir personagens, preservar continuidade, ajustar planos específicos e corrigir erros sem recomeçar tudo. A OpenArt afirma oferecer storyboard, conversa e refinamento de sequência; a adoção real vai depender de quanto controle existe depois do primeiro encanto.

O terceiro ponto é cultural. Se a publicidade passar a vender IA como direção, quem trabalha com imagem terá de explicar melhor o que direção significa. Não como defesa corporativa de uma função, mas como alfabetização visual: entender câmera, montagem, corpo, ritmo, intenção e contexto.

O vibe directing é uma boa pauta porque revela uma mudança de vocabulário. As ferramentas não querem ser apenas editores ou geradores. Querem ocupar o lugar simbólico da direção. Cabe aos criadores usar essa aproximação com lucidez: aproveitar a velocidade da máquina sem entregar a ela a parte mais importante do trabalho, que é decidir por que uma imagem merece existir.

Fontes